edição nº 10 ano 2021
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Passeio com a Avó

Minha vó Iracema era uma figura, legendária. As pessoas adoravam conversar com ela. Meus amigos ligavam para ela, para bater papo. Era chamada de Rainha do Cambuci e realmente se parecia com uma rainha, a Rainha Elizabeth da Inglaterra, mesma altura, mesmo corte de cabelo, mesma cor de pele. A casa dela era o QG da família onde eu ficava hospedada nas minhas férias no Brasil. Ela tinha um motorista, o seu Cornélio. Eles eram grandes amigos, tinham um relacionamento à la Driving Ms. Daisy. Numa rara ocasião o seu Cornélio não estava em casa, a empregada já tinha ido embora, eu tinha de ir a um advogado e convidei a minha avó para ir comigo. Eu nunca tinha passeado só com ela, muito menos eu no volante do carro. Aliás, foi a primeira e única vez que vi minha avó sentada no banco da frente, fiquei até meio nervosa, com medo de acontecer alguma coisa. O advogado ficava no centro de São Paulo, na Praça da Sé. Para lá fomos. Demorou para chegar, minha avó andava bem devagar, estava um calor escaldante, era hora do rush, finalmente, quase na entrada do escritório do advogado, no meio da Praça, ela vira: “Ai, Dani! Esqueci a água no fogo!”. “O quê?! Meu Deus, vó, vamos ter de voltar correndo para casa.” “Não, deixa pra lá, o Cornélio vai passar em casa, ele desliga.” Como eu realmente precisava assinar documentos no advogado, como correr com minha avó era impossível e como não podia largá-la na Praça da Sé sozinha, eu apostei no Cornélio. Isso foi antes da era do telefone celular. Fomos ao advogado, ela engrenou num papo bem longo com o pessoal do escritório, depois fomos tomar sorvete, ela adorou o passeio. Chegamos em casa, eu já tinha me esquecido da história do fogão. Fui de imediato lembrada do caso... meu tio nos esperava na salinha da entrada. Ele tinha saído correndo do trabalho para ir acudir a casa, “Ok, garotas, vou voltar ao trabalho agora que vocês estão aqui”. Em seguida ligou minha tia, “Daaaaani, mas o que aconteceu? Fiquei tão nervosa, minha diabete...”, seguida da minha irmã, “Dani, tá tudo bem?”, e da minha nora, “Pegou fogo aí?”. O Cornélio viu o fogão aceso, as “garotas” fora de casa e ligou para a família inteira. Até o guarda da rua passou para ver se estava tudo bem. Minha vó, toda lambuzada de sorvete, só dava risada. Inclusive chamou o Cornélio de "idiota", às gargalhadas. Eu tenho uma chaleira que apita, então com a água no fogo não me preocupo, agora com o forno... Surge o caminho evolutivo, cortesia de Sofia (veja este artigo). Eu testei, aprovei e recomendo. Lato por toda parte; tenho certeza que minha vó adoraria a técnica do woff, woff, woff. 

 

 

Daniela Pompeu

Daniela Pompeu, brasileira-americana, neta, filha, sobrinha e irmã de jornalistas, mora em Los Angeles, Califórnia. Graduada em Inglês pelo Hunter College, Nova Iorque, com especializacão em Literatura Medieval. Formada em Acting pelo Catherine Gaffigan Studio of Acting, Nova Iorque. Escreve um blog semanal, autora do livro Tea with Dani, que publicou em 2019.

 
 
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